“Aquele que faz perguntas não pode evitar as respostas.”
Provérbio da Repúlblica de Camarões
ELES NÃO PRECISAVAM de uma razão. Foram até lá apenas porque ele
era de descendência judia. Os nazistas invadiram sua casa, prenderamno
e a toda sua família. Foram conduzidos como gado, embarcados
num trem, e enviados para o infame campo de extermínio de Auschwitz.
Seus pesadelos mais terríveis nunca poderiam prepará-lo para ver toda
a família fuzilada diante de seus olhos. Como poderia sobreviver ao
horror de ver as roupas do filho em outra criança, porque o filho
morrera em decorrência de um “banho de chuveiro”?
Mas, de alguma forma, ele continuou. Um dia, contemplou o
pesadelo ao seu redor, e confrontou uma verdade inevitável: se
permanecesse ali por mais um dia sequer, também morreria. Tomou a
decisão de que precisava escapar, e de que a fuga devia ocorrer
imediatamente! Não sabia como, apenas sabia que tinha de escapar.
Durante semanas, perguntara aos outros prisioneiros: “Como podemos
escapar deste lugar horrível?” As respostas pareciam ser sempre a
mesma: “Não seja tolo! Não há escapatória! Formular tal pergunta só
servirá para torturar sua alma. Limite-se a trabalhar com afinco, e rezar
para sobreviver.” Mas ele não podia aceitar isso — e não aceitaria!
Tornou-se obcecado pela idéia de fugir, e mesmo quando as respostas
não faziam qualquer sentido, continuou a se perguntar, muitas e
muitas vezes: “Como posso fugir? Tem de haver um meio. Como posso
sair daqui, vivo, saudável, hoje?”
Dizem que quem pede, receberá. E por algum motivo, naquele dia
ele obteve sua resposta. Talvez fosse a intensidade com que formulou a
pergunta, ou talvez fosse o seu senso de certeza de que “agora chegou o
momento”. Ou talvez fosse apenas o impacto de focalizar de forma
incessante a resposta a uma pergunta veemente. Seja qual for o motivo,
o poder gigantesco da mente e espírito humano despertou naquele
homem. A resposta surgiu através de uma fonte improvável: o cheiro
repulsivo de carne humana em decomposição. A poucos passos do lugar
em que trabalhava, ele viu uma enorme pilha de cadáveres, na traseira
de um caminhão — homens, mulheres e crianças que haviam sido
retirados da câmara de gás. As obturações de ouro já tinham sido
arrancadas dos dentes; tudo o que possuíam — quaisquer jóias, até
mesmo as roupas — fora retirado. Em vez de perguntar “Como os
nazistas podem ser tão infames, tão destrutivos? Como Deus pode
permitir uma coisa tão monstruosa? Por que Deus fez isso comigo?”,
Stanislaw Lee fez uma pergunta diferente. Perguntou: “Como posso usar
isso para escapar?” E, no mesmo instante, ele obteve a resposta.
Ao final do dia, quando o grupo de trabalho voltava para os
alojamentos, Lee escondeu-se atrás do caminhão. Numa fração de
segundo, quando ninguém olhava, tirou as roupas, e se meteu na pilha
de cadáveres. Fingiu que estava morto, permanecendo absolutamente
imóvel, mesmo quando mais tarde foi quase esmagado, ao jogarem mais
cadáveres por cima dele.
O cheiro fétido de carne em decomposição o envolvia por
completo. Ele esperou e esperou, torcendo para que ninguém
percebesse que havia um corpo vivo naquela pilha da morte, torcendo
para que mais cedo ou mais tarde o caminhão saísse dali.
Ouviu finalmente o som do motor do caminhão sendo ligado.
Sentiu o caminhão estremecer. E naquele momento, no meio dos
mortos, sentiu um brilho de esperança. Depois de algum tempo, o
caminhão parou com um solavanco, e despejou sua macabra carga —
dezenas de mortos, e um homem vivo fingindo ser um cadáver — numa
enorme cova, aberta fora do campo de extermínio. Lee permaneceu ali
por horas, até o anoitecer. Quando teve certeza de que não havia
ninguém por perto, saiu da montanha de cadáveres, e correu nu por
setenta quilômetros, até alcançar a liberdade.
Qual era a diferença entre Stanislaw Lee e tantos outros que
pereceram nos campos de concentração? Claro que houve muitos
fatores, mas uma diferença crítica foi o fato de ele formular uma
pergunta diferente. Perguntou com persistência, perguntou com a
expectativa de receber uma resposta, e seu cérebro ofereceu uma
resposta que lhe salvou a vida. As perguntas que ele se fez naquele dia
em Auschwitz levaram-no a tomar decisões em frações de segundo,
produzindo ações que tiveram um impacto significativo em seu destino.
Mas antes que ele pudesse obter a resposta, tomar as decisões, e entrar
em ação, teve de formular para si mesmo as perguntas certas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário